06.12.09
Há que se pôr fim.

Das grandes lições da sessão da tarde, uma é especialmente valiosa: “não deixe assuntos inacabados”, do Gasparzinho.Não que eu acredite que alguém possa virar um fantasma camarada, pertubado ou mesmo um que tente se comunicar com a Whoopi Goldman. É exatamente o contrário: é na vida que esses assuntos se mostram realmente problemáticos. Dps daqui é lama, adubo, lágrimas que diminuem com o tempo.
Um sujeito pode estar lá tranquilão, tomando seu café, e algo banal como uma fofinha na outra mesa pode ser suficiente para joga-lo numa torrente de lembranças sobre a namorada que vivia tentando emagrecer e que de quem ele tomou um fora; a garota chora litros após a notícia da queda do AF477 pq a tragédia trouxe à lembrança os planos de viagem que traçou com o namorado que acabou ficando com uma amiga sua. Eles pretendiam viajar pela América do Sul, mas ora, iam ter que pegar um avião e poderiam ter sofrido algum tipo de acidente! Dá quase no mesmo!
É, histórias em aberto podem vir à tona pelos mais variados gatilhos. Alguém pode usar uma palavra peculiar, espirrar de um modo diferente, usar um determinado perfume, gostar de dias de chuva… absolutamente qualquer coisa, mesmo as mais ordinárias, podem nos dar aquele estalo-lembrança de alguém que conhecemos ou com quem convivemos.
Sabe esse lance de tags em blogs? A gente conhece pessoas, cria tags para elas e lança nas coisas das nossas existências. Botafogo me lembra Gabriel, poesia me lembra Bárbara, Heart só me lembra Wesley, etc.
Isso é normal, claro. Relacionamentos imprimem marcas, nos afetam. Compartilhar sua vida com alguém é colorir sua existência com cores de outrem. Cores sutis podem passar quase despercebidas; podem se misturar com as suas e gerar algo novo sem que vc nem ao menos se lembre do ponto antes da mistura. As cores fortes são mais poderosas. Elas singularizam o indivíduo e vc já olha pra paleta-humana esperando vê-las. Quando se afastam estão todos um pouco mais coloridos. Ou ao menos conhecem mais tonalidades, reforçam as suas próprias.
Quando a gente ama uma pessoa e a traz para uma esfera cada vez maior da nossa vida, as tags se multiplicam. Para uma única pessoa, por exemplo, eu tenho umas trocentas e quinze tags. Coisas banais como o estado do Espírito Santo, quaisquer menção ao curso de Odontologia, qualquer anúncio de consultório médico, roupas brancas, Gtalk, etc.
Fácil perceber o problema dos assuntos inacabados, né? Lembrar-se de alguém é normal, mas lembrar sempre de algo que não foi dito, feito, vivido… ah, isso é veneno. Não fosse suficiente que vários aspectos da sua rotina te remetessem à lembrança de alguém, vc ainda sofre por tudo estar indefinido, latente. Passar um tempão sofrendo cada vez que que ouvir um sotaque capixaba ou sofrer duplamente quando for tirar um ciso não é vida.
Dramas não encerrados são um horror. Vc se distancia no tempo e no espaço, mas as idéias crescem na sua cabeça. E se eu tivesse feito? E se não tivesse confiado? E se eu tivesse sido mais esperto? Será que eu fui o idiota? E se, e se e se?
A coisa – seja lá o que for – já está longe, mas suas idéias a respeito crescem a ponto de te sufocar. Se eu decidir escrever um manual para a vida infeliz darei destaque para o capítulo “Como estagnar sua vida”. Ancorar-se em sofrimentos passados e alimentar a mente com possibilidades que não existem são sempre boas escolhas.
Quanto terminamos uma relação deveríamos ser levados à presença de um juiz que nos obrigasse a falar tudo que estamos sentindo, cara-a-cara. E já que é pra delirar, acho que esse juiz deveria ser sempre um deus da psicologia capaz de avaliar se a questão já pode ser encerrada, se toda a roupa já foi lavada, se precisaremos de outras sessões, etc. Talvez ele até nos receitasse um convívio forçado durante o qual seríamos obrigados a lidar com o outro, a pensar nas nossas escolhas, a nos pôr no lugar do outro. Quando esse juiz sobrenatural percebesse que a situação estava encerrada e que ninguém seguiria sua vida com a mente no passado, poria fim ao regime.
Também poderiam haver clínicas de desintoxicação e reabilitação, com slogans do tipo “Siga sem traumas”; “Viva cada decepção como se fosse a primeira”, etc. Mas algo parecido já foi tentato no Brilho Eterno e não deu mt certo. Não é mt pedagógico, tb.
No meu mundo ideal as pessoas dominariam a arte do desapego. Compreenderiam o que é passível de compreensão, mudariam o passível de mudança e saberiam deixar o resto fluir. (Acho que meu mundo ideal dá uma apresentação no Power Point! Solta o Louis Armstrong!!)
*

- último dia, indo pra praia.
Fiquei surpreso com o tom leve que esse texto assumiu. Qnd pensei em escrevê-lo – e foi há tempos -, achei que ele sairia pesado e triste. Essa leveza deve ser fruto de uma última e inesperada conversa. Entrar em contato com a pessoa dps de tanto tempo de lembranças e reflexões pode ser mt bom: detona metade dos e se. Não, vc não agiu mal. Nao, não aconteceram mudanças; não, não vale a pena.
E ainda que vc se engane, o resto é história. Com suas cores bonitas, intensas e a leitura que se quiser fazer delas.
Mari disse,
14/06/2009 às 9:01 pm
Que bonito!
Fiquei imaginando pessoas todas pintadas de várias cores se encostando e borrando as outras. Parecia um comercial desses, sei lá, de carro, de TV, de computador… Enfim… Muito bonito.
E por falar nisso, tem aquele filme, né…Apenas o fim. Me pergunto se vai ser bom…
belinha disse,
01/09/2009 às 4:07 am
Nossa! sensacional isso aqui! Incrível como vc consegue expor com clareza sentimentos tão profundo! adorei!