
baseado em fatos reais.
Umas das coisas que mais me aborrecem nas minhas relações sociais é lidar com pessoas-personagens. Sabe, quando as pessoas criam uma identidade, delimitam seus espaços de criação e fazem o máximo para serem vistos de uma certa forma? Não se trata de gosto, traços identitários, tendências, querer ser visto como mais isso ou mais aquilo. Isso é comum, todo mundo faz. Um personagem é uma criação mais complexa. A ocupação primeira dessas pessoas é serem estilistas de si mesmas, retocadoras de suas próprias projeções. Um personagem traz características que devem estar sempre ali e isso é chato pra cacete! Em algum ponto a pessoa acaba virando uma caricatura.
Eles me irritam. Não todos, não com a mesma intensidade, nem sempre. Não chega a ser um problema por princípios: conheço criações diferentes. Gosto de algumas, tolero outras por pouco tempo; com alguns, gargalho litros, outros só chateiam. Varia, embora em algum momento todos me saturem.
Não gosto do quadrado! Não gosto da força que alguns personagens-gente fazem para serem sempre lidos “a partir de”, serem sempre referências no tocante àquele gosto, àquele estilo, etc. Não gosto qnd eles são chatos – o que acontece com frequência. Personagens mt definidos tendem a cansar. Podem divertir por 8 meses numa novela, por algumas temporadas em um seriado, mas acabam cansando. Na vida real e cotidiana cansam mt, mt mais. Quanto mais evidenciada é a sua construção, mas me encho.
Por outro lado, há um segundo grupo de persona-fakes que me incomoda mt mais: os mal construídos. A mentira perceptível torna a pessoa patética. Para quem lê o outro, poucas coisas são mais chatas do que a verdade mal escondida. Uma existência inteiramente fake? Céus, que coisa insuportável!
Ano passado conheci uma garota que projetava, em linhas gerais, a seguinte imagem: ” extrovertida, feliz, beberrona, sexualmente liberal e ativa. Faz o que bem entende, expõe suas opiniões polêmicas sem medo de discordâncias, não se importa com opiniões alheias pq tem segurança no que faz e pensa. É maluca e suuuper gente fina. Sempre um sorriso!”

Dava pena, dava nos nervos e dava desprezo.
Parecia-me que ela estabelecia metas ao levantar e nelas tentava viver durante todo o dia: como agir, o que ser, o que escrever, quem copiar, etc. O problema é que ela só obtém sucesso em parecer inconveniente, sem originalidade e burra. As mudanças nos discursos, por exemplo, são sempre guiadas para concordar, suavizar o que pudesse ter sido dito com mt enfâse. A garota que “não liga para o que os outros pensam” e a garota que ameniza suas próprias opiniões, se contradizendo e enchendo o saco alheio.
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E para combater ao menos o segundo grupo, lanço aqui a campanha SEJA UM FAKE REAL!.
Segue um pequeno guia que pretendo distribuir em escolas e faculdades. Tentei ser bem didático, para melhor compreensão dos juvenas e leites-com-pêra. Por experiência própria, sei que é nessa fase que começamos a fakecização de nós mesmos.
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Guia para um Fake Real - (ou: Como ser menos chato havendo escolhido ser chato.)
1. Crie identificação com algo.
Ex: gênero sexual, obra cultural, cutura diferente, uma personagem.
1.1 – Apreenda as características do item escolhido. Exacerbe-as.
2. Defina características para o personagem-você. Escolha itens com os quais se sentirá confortável, pois essa será sua vida.
Ex: Se for mulher, nada de escolher “sexualmente liberal e sem grilos” se não consegue pegar num peitinho. Se for homem, nada de escolher “macho-fudedor-ativasso-loucão” se não come de tudo. O objetivo é convencer, ainda que seu personagem faça a linha “me fodo para o que pensam os outros.”
2.2. – Para o item anterior, uma dica: escolha um personagem que permita mudanças. E dae que suas opiniões são gravadas em pedra e sua avó te chamaria de conservador? Projete uma imagem de “sempre aberto ao novo” e as pessoas só iram questionar se vc realmente não mudar.
dik:Personagens conservadores fazem mais sucesso qnd acrescidos de humor.
3. Creia no que inventou. A sinceridade é essencial para um Fake Real.
4.A partir de agora vc deverá utilizar O TEMPO TODO algo que remeta os outros ao seu faz-de-conta. Pode ser um um estilo de roupa, um trejeito, uma cor, expressões, gírias… invente! Crie com talento e se exponha até se tornar uma referência, um paradgma.
5. Evite contradições. Não mostre nada que evidencie sua mentira ao ir contra as características da sua personagem.
dik: O Item 2.2 ajuda a evitar choques e recepções negativas.
6. Esteja sempre atento à novas formas de cristalizar sua identidade. Incremente o visual, as gírias, seus pensamentos.
Ex: Se vc fizer a bicha cool – mt em voga -, esteja sempre atento ao que é tendência. Afie diariamente seu vocabulário de trava. Aprenda tudo antes de criarem comunidades no Orkut – ou pelo menos antes que os heteros comecem a entrar nela. (E nunca, JAMAIS!, aprenda alguma gíria de bee com as colegas rachas! Não faça a uó!)
7. Seja o precursor!, a referência!, o detentor de maiores informações! Essa parte é trabalhosa, principalmente para os que escolhem personagens identificados com culturas, extraídos de obras extensas ou ainda em produção, detentores de cabedal intelectual, etc. O melhor é que vc de fato conheça o universo no qual decidiu viver. As pessoas farão perguntas a respeito. Se vc não conseguir isso, siga os itens abaixo:
7.1 – Se alguém perguntar algo que vc não saiba, diga que esqueceu, mas que daqui a pouco se lembra. Peça pra perguntarem depois, chegue em casa e gugue o assunto.
7.2 – Se vc não está confiável, não entre em uma disputa de conhecimentos ou discussões que possam evidenciar sua mentira.
7.3 – Ninguém te apresenta ou ensina nada inteiramente novo. Você no máximo esqueceu daquele autor, daquela banda, mas já ouviu falar de tudo que as pessoas indicam pq “acham a sua cara”.
7.4 – Outra forma de agir: não conhece o que estão te apresentando? Olhe de soslaio. Faça uma cara de desaprovação, teça um ou dois comentários a respeito e descarte com desprezo. Se vc não conhece, não deve ter aparecido nos 20 primeiros resultados do Google, e se não apareceu lá, não deve ser mt bom. É sempre melhor pensarem que vc não tem interesse e desaprova do que pensarem que vc não conhecia itens do universo que adora dizer que vive.
7.5 – Se o assunto estiver relacionado ao seu mundinho, evite fazer concessões, admitir erros, whatever. Treine a mente para nunca dizer nada mt definitivo – a menos que esteja inteiramente certo -, e após uma discussão perdida, faça sempre parecer que vc estava defendendo o ponto vitorioso.
7.6 – Antecipe-se: aproveite todos os momentos para mostrar o quanto vc sabe sobre o que escolheu saber. Aprenda a levar QUALQUER conversa para territórios nos quais se sinta seguro e possa dominar a conversa.
8. Mito das origens. Eventualmente irão perguntar desde qnd vc age assim, pq gosta disso ou daquilo. Escolha:
8.1 – Ao ser qeustionado, adote expressões facias de quem faz força pra se lembrar: deixe as pessoas pensarem que vc é assim desde a mais tenra idade.
8.2 – Caso o seu passado possa vir à tona, tome cuidado. Apenas faça as origens se perderem no tempo e não se estenda mt no assunto. Faça parecer que cada um dos traços que vc pensou detalhadamente foram adquiridos naturalmente.
8.3 -Aqui e no Item 6, abuse de sorrisos enigmáticos: finja ter preciosas informações que os outros não tem.
8.4 – Enfeite o pavão. Sempre tomando cuidado para não ser descoberto, pinte o passado à seu gosto. Pessoas fazem isso o tempo todo, right?
9. Evite contradições e evite expor-se em momentos que evidenciem que vc não é bem o que diz ser.
(Novamente, se tiver observado o Item 2.2, as coisas são mais fáceis e aceitáveis.)
10. Viva integralmente o seu personagem. Transforme-o na sua verdade máxima: vc é isso que quer mostrar e é isso em todos os momentos. Acredite e não seja um outro nem em momentos íntimos.
Quando você alcançar um nível respeitável e virar Bruno, a Divertida Bicha Louca; Joana, a Pansexual Metaleira; Fábio, o Intelectual Gente Boa, ou qualquer outra coisa que puder ter escolhido, seus “desvios comportamentais” serão sempre lidos de forma a realçar a personagem assumida. Será a hora de acostumar-se com “- ah, mas esse não é vc!”, “- ah, n foi assim que te conheci!”. Parabéns, vc conseguiu!

Para os que dão mais valor à campanhas do Green Peace, twittar #forasarney ou adotar crianças pobres, peço que atentem para a importância dessa iniciativa. Pensem no bem-estar nas faculdades, nas redes de relacionamento, no trabalho, etc. Mudaremos o mundo qnd mudarmos os chatos.
E pra Saturno, preferencialmente.